Cansei de ser forte
Quando você pensa na ideia de “força”, o que vem à sua mente?
Pra mim sempre esteve relacionado com aguentar. Que o certo é engolir o medo, esconder as fraquezas e continuar. A gente aprende cedo esse manual de sobrevivência: “não desista”, “engole o choro”, “você consegue se esforçar mais”.
E por anos eu segui exatamente isso: ao aprender a programar, ao mudar de carreira, ao começar a correr. Em vez de ouvir meu corpo e minhas emoções, eu tratava tudo como um obstáculo a ser atropelado. E ainda achava que tudo o que fazia era o mínimo, que eu tinha que ir até o meu limite, ser autossuficiente, resolver tudo sozinha.
É um jeito de viver que até funciona por um tempo e até te leva longe, mas custa energia emocional, custa saúde mental e custa o prazer de estar presente enquanto a vida acontece.
Um tempo atrás li um livro chamado Do Hard Things, do Steve Magness, que me ajudou a redefinir algumas coisas. O autor diz que fazer coisas difíceis não é fingir que nada te afeta, mas sim desenvolver uma relação mais honesta com o que sentimos, equilibrando coragem, autoconhecimento e compaixão.
Ele propõe algumas ideias que me ajudaram a ressignificar a forma como eu enxergo ser forte, entre elas que a confiança se constrói com evidência — não com autoafirmação vazia. Ele crítica a “motivação tóxica” (aquela que diz que é só você querer que você consegue). A gente precisa começar menor do que acha que deveria e aumentar progressivamente.
Já coragem é caminhar junto com o medo — não esperar o medo desaparecer ou fingir que ele não existe. Temos que nomear o medo: “estou com medo de falhar, de ser julgada , de não conseguir” e dar um passo, nem que seja mínimo, mesmo assim.
Outra coisa que ele fala é que resiliência é adaptação — ao invés de insistir sempre na mesma estratégia, quem é realmente resiliente tem várias formas de lidar com as coisas. A pessoa escolhe o que faz sentido pra cada situação.
E por fim controle é regulação emocional — não sufocar emoções. Em vez de ver as emoções como obstáculos a serem superados, precisamos reconhecê-las como fontes valiosas de informação, sobre nós e o que nos cerca, assim podemos tomar decisões mais informadas e melhorar nosso bem-estar geral.
Eu levei muito tempo para entender que não preciso ser a versão imbatível de mim mesma todos os dias. Hoje eu me orgulho quando escolho e consigo descansar sem culpa, quando admito que algo está difícil e peço ajuda, quando desacelero para conseguir continuar.
A corrida me ensinou muito sobre isso também. Correr forte não é sair se destruindo desde o início. É encontrar ritmo, respeitar as fases, aceitar que nem todos os dias o corpo responde igual. A recuperação faz parte do progresso e o descanso também é treino. Mas no resto da vida a gente esquece disso né? Tratamos tudo como se fossemos feitos apenas da parte que entrega, que dá resultado, que aguenta o tranco.
Ser forte não é ignorar a dor ou fingir que está tudo bem, é justamente o contrário. Força é quando você sente o desconforto, reconhece o medo ou a dúvida, e ainda assim continua. É observar os sinais do corpo e da mente, ajustar o passo quando precisa, e tomar decisões que ajudam você a seguir em frente sem se destruir no processo. Em vez de provar que é inquebrável, você aprende a ser adaptável.
Força é se conhecer o suficiente para saber quando vale insistir e quando vale parar.
Força é pedir ajuda antes de desmoronar.
Força é admitir que existe medo.
Força é assumir que existe dor.
Força não é um destino que a gente alcança, é uma prática diária. Um jeito de estar na vida. É algo que cresce com a gente, muda com a gente e se adapta ao que cada fase exige.
Obrigada por estar aqui ❤️
Se fez sentido pra você, envia pra quem precisa de uma força mais leve.
A gente se encontra na próxima edição. 👋🏻





Nossa, esse ano aconteceram tantas coisas na minha vida e a resolução final que eu tive sobre tudo foi exatamente o que vc colocou nesse texto, muito obrigada por dar forma a várias coisas que eu vinha refletindo sobre. Aproveitando o comentário, queria dizer que é muito legal receber suas reflexões do nada no e-mail. Não estou mais em redes sociais então é legal às vezes só chegar um conteúdo assim, e ser algo sempre interessante. Fiquei só com o youtube e te acompanho por lá desde o comecinho do canal, gosto demais de todos os seus conteúdos. <3